quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Grande sertão: veredas. Ironia nas armadilhas do amor.

Grande sertão: veredas. Ironia nas armadilhas do amor.
O presente trabalho visa analisar o romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, com o intuito de verificar se o amor entre as personagens, Riobaldo e Diadorim, se enquadra no caso de um amor castrado como o amor de Abelardo e Heloisa, ou até se ocorreu um amor nos moldes que a recepção conclamou ou conclama todos esses anos após a publicação do romance. Ou seja, será que ocorre um amor entre Riobaldo e Diadorim? Isso que tentarei responder ou desmistificar no final do trabalho.
De acordo com Zumthor, o amor e a sexualidade não são sinônimos nem compatíveis e por isso de sua união não pode derivar um final feliz. O desejo carnal torna-se um obstáculo para a união de Abelardo e Heloisa, que só poderão ter uma relação de amor sublime, amor imaculado, onde a relação profana do sexo não tem lugar. A castração de Abelardo retira dele o seu instinto animalesco ao qual o desejo o reduzia e traz de volta os pensamentos coletivos, puros e resignados, mais condizentes com sua função, afastando de uma vez por todas a tendência rebelde que o desejo desenfreado desencadeava nele, bem como o perigo de desviá-lo de seus desígnios.
Da mesma forma Diadorim, em focar única e exclusivamente o seu desejo de vingança, castra-se e exclui qualquer tipo de desejo ou possibilidade de revelação feminina ao se travestir e assumir características de homem no universo dos jagunços das gerais.
Desse modo, a análise proposta objetiva entender como, do ponto de vista do amor castrado, isso realmente ocorre ou se até mesmo ocorre. Proponho também a hipótese de uma conclusão errônea da recepção da existência de um amor entre Diadorim e Riobaldo, entendendo que pelo fato da recepção ter a consciência do gênero de Diadorim, essa recepção foi levada a concluir que acorre um amor nos moldes homem/mulher entre as duas personagens.
Dessa forma, buscarei observar o embate entre as personagens principais e seus interlocutores, haja visto que na sociedade em que se passa a trama era inadmissível uma relação mais próxima entre dois homens, mesmo que essa configurasse uma nobre relação de amizade.
Vou me aventurar na análise da obra Grande sertão: veredas, baseando-me em duas afirmativas da crítica de D.C.Muecke intitulada ironia e o irônico. A primeira ressalta que ironia não é apenas escrever em uma direção querendo apontar para outra. A segunda afirmação, que consta nesse mesmo livro de crítica e também está na constatação de Friendrich Schlegel (1800), fala de cair inconscientemente na ironia, sem pressupor um intermediário irônico personificado.
A título de exemplificação destas afirmativas A. W. Schlegel, 1811, considera que Shakespeare apresenta uma ironia de eventos em seu Rei Henrique V:
Depois de suas famosas batalhas, Henrique quis assegurar suas conquistas através de um casamento com uma princesa francesa; tudo que faz referência a isso é entendido como ironia na peça. O fruto dessa união, com que as duas nações prometeram entre si tal felicidade no futuro, foi o fraco e pusilânime Henrique VI, sob cujo reinado se perdeu tão miseravelmente tudo.
Guimarães Rosa já inicia sua narrativa de forma irônica com seu narrador expondo sua vida de aventuras para um interlocutor mais culto e intelectualizado que se assusta ao ouvir um estampido; - Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. O senhor ri certas risadas... Olha: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então se vai ver se deu mortos.”
Essa abertura nos prepara para ver uma exposição de fatos que será feita a um interlocutor, ou seja, para um narratário. Este ao nos substituir nas páginas de grande sertão mostra a nossa pretensão de ver as coisas do sertão como algo menor e por desconhecê-las, isto é, não fazermos parte delas, iremos nos surpreender por todo o transcurso da narrativa, como entendemos que o interlocutor de Riobaldo provavelmente se surpreendeu.
Nessa construção o autor penetra no coração selvagem da língua para desse mundo retirar seu modo de expressão. Ele se embate com seu interlocutor de forma a demonstra que o seu lugar universal tem sua própria forma de se expressar e em suas observações lingüísticas mostra ironicamente que existe um vocabulário próprio nesse mundo narrado.
Não sabemos se com a intenção de se fazer entendido ou se por conta de sua nova condição, na fala de Riobaldo Guimarães entranha o popular no culto e o culto no popular, construindo o culto através do popular. A camada íntima da criação está na ironia que é expressa na oposição entre sertão e veredas, pois tudo de bom acontece nas veredas e tudo de maléfico e diabólico ocorre no setrão; Sertão norma culta, Veredas popular.
A narrativa é uma obra de muitas histórias: Sertão, pacto, jagunçagem, amor, guerra, povo. Todas estas informações correm juntas pelo tempo do narrador: Passado Inhoinha, futuro Otacília, presente Diadorim, pois ao retomar sua história podemos perceber que Diadorim está mais presente que nunca através de suas memórias.
Como propus no início, a idéia não é pensar a ironia apenas no sentido de escrever em uma direção apontando para outra. A construção percebida em Grande sertão: veredas aponta claramente uma atitude irônica do autor ao se defrontar com os bibliômanos, como diria Machado de Assis, que tentam sempre encontrar uma interpretação, geralmente única, para a criação literária. Assim, o amor pseudo homossexual, o pacto com o demônio e outras análises que são feitas dessa obra se tornam menores quando se observarmos a ironia que está por trás de cada fato narrado. O fato de Riobaldo e Diadorim se unirem para guerra e dessa união, em um universo que só caberia a guerra, surge um amor inexplicável é um dilema que talvez a comunidade letrada, nem a iletrada conseguem conceber ou valorizar.
Da mesma forma que a união do rei Henrique V com uma princesa francesa ocasionou um efeito contrário aquele que pretendia, a união de Riobaldo e Diadorim também tendeu para uma direção contrária da esperada pelas duas personagens. O amor impossível de Riobaldo por Diadorim, seja porque ele não teve coragem de assumir seu amor, ou mesmo porque não teve tempo, ironicamente se desnuda possível após a morte de Diadorim que continuará sendo amada como mulher por Riobaldo do presente e sendo amado como homem, amigo ou homossexual como queira conceber o seu leitor e interlocutor, no passado.
Nas histórias de povo que observamos no transcorrer da obra percebemos a ironia nas oposições de bem e mal onde o mal esta postado no mais fraco ou na natureza das pessoas como no caso do garoto endiabrado que já nascera tolido para o mal como se as atitudes que se tomavam contra ele não servissem como catalisador de sua maldade e essas atitudes emanavam justamente daqueles que deviam protegê-lo.
O pacto também pode ser observado ironicamente, pois Riobaldo não acredita no demônio e por isso não acredita também no pacto isso fica para interpretação dos interlocutores da obra e em muitas passagens percebemos que Riobaldo não é o homem mais indicado para liderar os jagunsos na guerra, no entanto ele vai se moldando conforme os acontecimentos e seu amor por Diadorim vão se intensificando, sua força claramente não vem do pacto e sim da necessidade de liderar, tanto que no auge da batalha derradeira Riobaldo se coloca como um observador, aquele que ironicamente vê tudo do alto e sem interferir e vê o demônio rodando no redemoinho, vê seu amado ou amada como queira o leitor rodando com Ermogines a dança da morte no rodamoinho e estes fotos apontam porá a possibilidade de seu narratario também se tornar corajoso e não se assustar mais com um simples estampido, ele tenta igualar a todos, letrados e iletrados num grande redemoinho.
O confronto entre popular e letrado esta também no confronto entre homem e natureza entre sertão e veredas, a natureza não é um ser, mas um tornar-se, um caos infinitamente fervilhante, um processo dialético de continua criação e dês-criação. O homem, sendo quase a única destas forças criadas, que logo serão dês-criadas, deve reconhecer que não pode adquirir qualquer poder intelectual ou experimental permanente sobre o todo. Não obstante, ele é impelido ou, como se diz agora programado para compreender o mundo, para reduzi-lo à ordem e coerência, mas qualquer expressão de seu entendimento será inevitavelmente limitada, não só porque ele próprio é finito, mas também porque pensamentos e linguagem são inerentemente sistemáticos e fixativos, enquanto que a natureza é inerentemente elusiva e protética.
Nesse sentido Guimarães ao apresentar e não criar uma nova linguagem ele mostra o quanto o homem letrado tem a aprender com o sertão e as veredas, com o popular e os iletrados, pois o movimento natural de criação e dês-criação da natureza abate mortalmente somente ao homem todo o resto só passa por um processo de transformação e recomposição, as palavras que são supostamente criadas por Guimarães são na verdade reconstruções de uma linguagem pré existente no universo de Rosas e do povo de seu universo real e ficcional.
O ritmo da narrativa traz um traço básico de toda ironia é um contraste entre realidade e aparência é quase um carro de bois que narra uma guerra, um pacto, o povo, o sertão e as veredas um ritmo que aos olhos do desatento não se combina com a narrativa, mas na realidade esta apontando para existência eterna e primordial das coisas simples e permanentes da vida, ou seja aquilo que realmente tem de ser aprendido. O fato de Diadorim ser na realidade uma mulher esta apontando também para esse traço básico da ironia e também podemos perceber que a ironia não esta apenas em ver um significado real por baixo de um falso, mas ver uma dupla exposição.
Muitos autores uniram amor e guerra mas nenhum de forma tão irônica e perspicaz. Guimarães consegue idealizar um amor em guerra, guerra essa que habita dentro principalmente no personagem Riobaldo que não estava preparado para guerra no sertão mais diante desse amor de guerra interior se torna capas de liderar seu grupo em direção da vitoria e do redemoinho de excreções, fatos e paixões que afetam todos da narrativa e que penetra no intimo do interlocutor. Guimarães coloca Riobaldo diante de um paradoxo e paradoxo e a forma da ironia, sua alma, sua fonte e seu principio. A ironia é a analise na medida em que se opõe à síntese da tese e da antítese. É igualmente fatal para mente ter um sistema e não ter nenhum. Ela simplesmente terá de decidir combinar os dois.
Nesse conceito tão complexo Guimarães fecha sua obra ao revelar a Riobaldo e não para o leitor que já sabia dês do inicio, que Diadorim era uma mulher e ele Riobaldo simplesmente terá de decidir combinar os dois, um amor impossível no passado e um amor idealizado no presente de Riobaldo e suas lembranças que são narradas para o seu interlocutor.
Podemos também encarar o desfecho da obra de Guimarães como um desfecho trágico da mesma forma que encaramos Otelo e Édipo Rei como não comédias. Contudo são espetáculos de cegueira, e chamá-los tragédias não pode tirar deles o que tem em comum com um jogo de cabra-cega: prazer cômico com sobretons de sadismo e voyeurismo. Quanto àqueles que dizem que o trágico e o cômico são mutuamente exclusivos na vida ou na literatura, estão se movendo cegamente em mundos não-realizados e podemos muito bem perguntar-lhes: Porque no transcurso da narrativa não alertaram Riobaldo que Diadorim era uma mulher.
Encerro com uma citação de Kierkegaard: A ironia não esta presente realmente para alguém que é demasiadamente natural e demasiado ingênuo, mas somente se mostra para alguém que, por sua vez, é desenvolvido ironicamente... Na verdade, quanto mais desenvolvido politicamente for o individuo, mais ironia ele encontrará na natureza.”

AFRANIO COUTINHO

Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro, 1963, pp. 127-131.
ANTROPOFAGIA DE GERAÇÕES
Quem tem contacto com a mocidade estudantil de nossa terra não pode deixar de observar a enorme ânsia de aprender e a larga receptividade que denota em relação ao saber. É uma mocidade ávida, sequiosa, intelectualmente disponível, mas buscando aprender com volúpia, para preencher a sua disponibilidade e dirigi-la. Onde quer que haja possibilidade de beber conhecimentos, aí estará ela, buliçosa, mas atenta e vigilante ao que possa beneficiá-la no particular. Veja-se o exemplo dos cursos de letras, em toda aparte, aos quais ocorreram às centenas superlotando anfiteatros. E não se diga que é a cata ao diploma, pois desses cursos não tirarão certificados que lhes possam render algo material. É simplesmente o desejo insopitável de saber que leva os jovens a ouvir tais cursos, no afã de completar a formação que os estudos regulares não proporcionam.
Em verdade, aí está o ponto crucial do assunto, o Brasil tem crescido desproporcionalmente, do ponto de vista material, sobretudo, a que não corresponde, de modo algum, um desenvolvimento intelectual consentâneo e à altura das necessidades de ordem material. A vida intelectual brasileira oferece um atraso, um retardamento de cinqüenta anos em relação ao estado presente da cultura mundial e ao próprio desenvolvimento material do país. Não estávamos ainda adequadamente preparados, do ponto de vista intelectual, para enfrentar a situação de avanço material do país. Por isso devemos responsabilizar a ausência de universidades, com que nos brindou uma colonização estreita e egoística. Não formamos, em conseqüência, uma mentalidade de nível superior e uma equipe de dirigentes desse tipo, que teria criado no país hábitos de pensamento e ação diferentes dos quais dominam até hoje, inspirados na improvisação, empirismo, desplanejamento, irreflexão.
Tal defeito repercute naturalmente em nosso meio educacional, onde os corpos docentes, na sua generalidade, são constituídos de professores improvisados, sem o devido preparo técnico e sem o gosto da profissão, que exercem como um bico acrescentado às suas atividades normais e mais lucrativas ou de mais relevo social e político. O ensino, entre nós, ainda é atividade marginal, sem espírito profissional e sem dedicação e especialização.
Daí a insatisfação com que reagem aos seus mestres os jovens estudantes brasileiros. É geral o divórcio entre o que exigem os alunos e o que lhes podem oferecer os seus mestres. As novas gerações brasileiras vivem um drama:ansiosas de aprender, falecem-lhes os guias normais. Raramente, entre nós, sedá a formação de uma escola, isto é, um mestre cercado de auxiliares que lhe prolongam e transmitem o pensamento a discípulos que o seguem para cumprir,por sua vez, a missão de alargar a cultura a partir daquele ensinamento. Em nosso meio, não há liderança intelectual. Não há líderes intelectuais, como não os há literários. Aqui é cada um por si, e os outros contra. As nossas figuras intelectuais, literárias ou educacionais, por desencanto ou outra qualquer razão preferem participar social ou politicamente, tornam-se chefes sociais ou políticos,desviando-se e deixando de ser líderes intelectuais, o que acarreta o desbarato ou a perda das gerações. Na língua portuguesa não há mesmo expressões usuais para designar o que os franceses significam por "ainé" e "cadet", palavras tão comuns para exprimir o escalonamento e sucessão das gerações, literárias ou outras. Entre nós, o corrente é a antropofagia das gerações, cada uma sentindo-se obrigada a partir do começo, após destruir ou negar a anterior, conforme o mito enganoso da soberania da geração presente. Mas isso decorre da falência de liderança e guia da geração mais velha. A desilusão com que sai de uma classe um aluno aberto à conquista intelectual só terá como consequência a repulsa.
É de fácil observação nos nossos meios intelectuais, nos diversos centros universitários e colegiais do país, como os alunos se deparam com verdadeiros desertos intelectuais representados pelos seus mestres com raros oásis de exceção. Atrasados, inatuais, sem cultura, sem gosto pelo estudo, sem domínio da bibliografia antiga e corrente da matéria, cépticos, sem élan, meros repetidores de sovados compêndios, incapazes de experimentações e mudanças,empedernidos, fossilizados na repetição anual das mesmas apostilas,exclusivamente preocupados com aumentos de vencimentos ou época de aposentadoria, não podem, de maneira alguma, corresponder às exigências de uma mocidade ávida de saber, inquieta e marcada pelo sentimento de insegurança do futuro. Resultam o divórcio, o conflito, ainda agravados pelo crescimento de número que elevou a população escolar a verdadeira avalanche. Assim, o pequeno contingente de professores não corresponde, nem mesmo numericamente, às necessidades do ensino.
Há que pingar, todavia, uma palavra ao crédito dos professores. Não há dúvida que muitos são verdadeiros heróis, vindos por si, sem que ninguém os houvesse ensinado como ensinar, abrindo caminho na pobreza, sem poder comprar livros, não tendo tempo para estudar porque os dias eram gastos em aulas de ganha-pão e em energias físicas, sem faculdades de educação onde formar as suas técnicas. Merecem todas as honrarias e gratidões. O que não impede que desejemos mudar a situação. O fato de ter sido assim não nos obriga a ficarmos sempre assim, em homenagem ao erro. O conformismo com a tradição errada é a pior desgraça. Tenhamos a coragem de romper com ela para criarmos algo melhor.

Afranio Coutinho.
31/3/1957.