quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

AFRANIO COUTINHO

Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro, 1963, pp. 127-131.
ANTROPOFAGIA DE GERAÇÕES
Quem tem contacto com a mocidade estudantil de nossa terra não pode deixar de observar a enorme ânsia de aprender e a larga receptividade que denota em relação ao saber. É uma mocidade ávida, sequiosa, intelectualmente disponível, mas buscando aprender com volúpia, para preencher a sua disponibilidade e dirigi-la. Onde quer que haja possibilidade de beber conhecimentos, aí estará ela, buliçosa, mas atenta e vigilante ao que possa beneficiá-la no particular. Veja-se o exemplo dos cursos de letras, em toda aparte, aos quais ocorreram às centenas superlotando anfiteatros. E não se diga que é a cata ao diploma, pois desses cursos não tirarão certificados que lhes possam render algo material. É simplesmente o desejo insopitável de saber que leva os jovens a ouvir tais cursos, no afã de completar a formação que os estudos regulares não proporcionam.
Em verdade, aí está o ponto crucial do assunto, o Brasil tem crescido desproporcionalmente, do ponto de vista material, sobretudo, a que não corresponde, de modo algum, um desenvolvimento intelectual consentâneo e à altura das necessidades de ordem material. A vida intelectual brasileira oferece um atraso, um retardamento de cinqüenta anos em relação ao estado presente da cultura mundial e ao próprio desenvolvimento material do país. Não estávamos ainda adequadamente preparados, do ponto de vista intelectual, para enfrentar a situação de avanço material do país. Por isso devemos responsabilizar a ausência de universidades, com que nos brindou uma colonização estreita e egoística. Não formamos, em conseqüência, uma mentalidade de nível superior e uma equipe de dirigentes desse tipo, que teria criado no país hábitos de pensamento e ação diferentes dos quais dominam até hoje, inspirados na improvisação, empirismo, desplanejamento, irreflexão.
Tal defeito repercute naturalmente em nosso meio educacional, onde os corpos docentes, na sua generalidade, são constituídos de professores improvisados, sem o devido preparo técnico e sem o gosto da profissão, que exercem como um bico acrescentado às suas atividades normais e mais lucrativas ou de mais relevo social e político. O ensino, entre nós, ainda é atividade marginal, sem espírito profissional e sem dedicação e especialização.
Daí a insatisfação com que reagem aos seus mestres os jovens estudantes brasileiros. É geral o divórcio entre o que exigem os alunos e o que lhes podem oferecer os seus mestres. As novas gerações brasileiras vivem um drama:ansiosas de aprender, falecem-lhes os guias normais. Raramente, entre nós, sedá a formação de uma escola, isto é, um mestre cercado de auxiliares que lhe prolongam e transmitem o pensamento a discípulos que o seguem para cumprir,por sua vez, a missão de alargar a cultura a partir daquele ensinamento. Em nosso meio, não há liderança intelectual. Não há líderes intelectuais, como não os há literários. Aqui é cada um por si, e os outros contra. As nossas figuras intelectuais, literárias ou educacionais, por desencanto ou outra qualquer razão preferem participar social ou politicamente, tornam-se chefes sociais ou políticos,desviando-se e deixando de ser líderes intelectuais, o que acarreta o desbarato ou a perda das gerações. Na língua portuguesa não há mesmo expressões usuais para designar o que os franceses significam por "ainé" e "cadet", palavras tão comuns para exprimir o escalonamento e sucessão das gerações, literárias ou outras. Entre nós, o corrente é a antropofagia das gerações, cada uma sentindo-se obrigada a partir do começo, após destruir ou negar a anterior, conforme o mito enganoso da soberania da geração presente. Mas isso decorre da falência de liderança e guia da geração mais velha. A desilusão com que sai de uma classe um aluno aberto à conquista intelectual só terá como consequência a repulsa.
É de fácil observação nos nossos meios intelectuais, nos diversos centros universitários e colegiais do país, como os alunos se deparam com verdadeiros desertos intelectuais representados pelos seus mestres com raros oásis de exceção. Atrasados, inatuais, sem cultura, sem gosto pelo estudo, sem domínio da bibliografia antiga e corrente da matéria, cépticos, sem élan, meros repetidores de sovados compêndios, incapazes de experimentações e mudanças,empedernidos, fossilizados na repetição anual das mesmas apostilas,exclusivamente preocupados com aumentos de vencimentos ou época de aposentadoria, não podem, de maneira alguma, corresponder às exigências de uma mocidade ávida de saber, inquieta e marcada pelo sentimento de insegurança do futuro. Resultam o divórcio, o conflito, ainda agravados pelo crescimento de número que elevou a população escolar a verdadeira avalanche. Assim, o pequeno contingente de professores não corresponde, nem mesmo numericamente, às necessidades do ensino.
Há que pingar, todavia, uma palavra ao crédito dos professores. Não há dúvida que muitos são verdadeiros heróis, vindos por si, sem que ninguém os houvesse ensinado como ensinar, abrindo caminho na pobreza, sem poder comprar livros, não tendo tempo para estudar porque os dias eram gastos em aulas de ganha-pão e em energias físicas, sem faculdades de educação onde formar as suas técnicas. Merecem todas as honrarias e gratidões. O que não impede que desejemos mudar a situação. O fato de ter sido assim não nos obriga a ficarmos sempre assim, em homenagem ao erro. O conformismo com a tradição errada é a pior desgraça. Tenhamos a coragem de romper com ela para criarmos algo melhor.

Afranio Coutinho.
31/3/1957.

Nenhum comentário:

Postar um comentário